O processo político que destituiu do cargo o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, na última sexta-feira (22), transformou em sólido o que antes fluía no campo das ideias quando da criação da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). O princípio de integração, que norteia os rumos da Universidade e está presente em todos os documentos fundantes, tem sido materializado sob a forma de manifestações pacíficas via redes sociais e nas ruas de Foz do Iguaçu, no Brasil, e Ciudad del Este e Asunción, no Paraguai. A expressão destas manifestações nos últimos dias, ainda, tem atingido os meios de comunicação e periódicos científicos por meio de análises críticas, entrevistas e relatos por parte dos envolvidos.
Os reflexos do processo de juicio político, similar ao impeachment mas em versão latino-americana, no Paraguai, foram acompanhados por professores e discentes da instituição desde o início. A aprovação do processo na Câmara do Paraguai contra o presidente Fernando Lugo foi definida pelo professor do curso de Ciência Política e Sociologia da UNILA, Fabrício Pereira da Silva, como uma tentativa de “golpe branco” - isto, no dia anterior à votação pelo Senado, na quinta-feira (21). “Estão procurando algum caminho legal para derrubar o presidente, sem discussão e sem direito a defesa. O impeachment leva alguns meses, ninguém sofre impeachment por incompetência, mau governo”, disse Fabrício ao portal de informações G1.
Na manhã do dia seguinte, a professora do curso de Ciência Política e Sociologia, Victoria Darling, seguiu rumo à capital do Paraguai para acompanhar as manifestações em frente ao Senado, durante a votação do juicio político. “Fui, sobretudo, para escutar. Queria colher impressões das pessoas sobre este processo. Foram momentos bastante angustiantes, pois éramos três mil manifestantes na Plaza de Armas, que estava completamente cercada por 1,5 mil policiais armados”, destacou. Estas impressões geraram o artigo “Paraguai: quando um golpe de Estado se veste de terno e gravata”. “Aprendemos que os mecanismos institucionais criados para salvaguardar democracias jovens podem ser usados contra elas”, coloca. A professora acabou encontrando acadêmicos da UNILA na cidade, que foram apoiar a manifestação e registrá-la em fotos e vídeo para um documentário (inclusive, as fotos que ilustram esta matéria são da acadêmica uruguaia de Ciência Política e Sociologia, Besna Yaconvenco).
Na mesma sexta-feira, um grupo de alunos e professores da instituição, junto a representantes de outros movimentos sociais, seguia com faixas contrárias ao golpe para a Ponte da Amizade, que une o Brasil ao Paraguai. Este mesmo grupo, desde então, vem crescendo e auxiliando na organização de uma série de manifestações pacíficas na região Trinacional que tem o objetivo de chamar atenção para o fato. A maior das manifestações está marcada para esta sexta-feira (29), com início às 8 horas e concentração no prédio central da UNILA. Articulada com outros movimentos sociais da região, a organização já conta com o engajamento de, pelo menos, 100 unileiros, além de professores da instituição. A proposta é caminhar do prédio de salas de aula até a Ponte da Amizade.
Para a professora de Relações Internacionais Tchella Maso, o momento instável no Paraguai traz à tona a vocação da instituição em relação às lutas em prol de direitos diversos na América Latina e em relação às problemáticas latino-americanas. “São estudantes e professores de diversos países latino-americanos reunidos em torno de uma causa específica. Temos aí um bom exemplo que efetiva o princípio de cooperação solidária, um dos pilares da instituição. É a possibilidade de termos integração na prática, que passa pelo conhecimento”, afirma.
A instituição está bastante próxima ao epicentro do terremoto. Além de, geograficamente, estar localizada ao lado da fronteira com o Paraguai, em Foz do Iguaçu, a UNILA conta com mais de 200 acadêmicos do país vizinho em seu quadro discente e tem entre os objetivos específicos a análise das problemáticas latino-americanas, a integração solidária e a integração por meio do conhecimento. Isto tudo, entretanto, não resume a motivação dos envolvidos. Para a professora Victoria Darling, a saída às ruas por parte de professores, acadêmicos e técnicos-administrativos está mais relacionada ao compromisso ético de cada um com a realidade do outro. "Sabemos que só podemos evitar este tipo de ato político na América Latina com mobilização e participação cidadã pacífica. Precisamos perceber que nem sempre o que é legal é legítimo. A integração significa também compromisso com a realidade do outro latino-americano", conclui.
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